Entrevista: Remodelando o panorama financeiro da África Austral (IESEG)

Entrevista: Remodelando o panorama financeiro da África Austral (IESEG)

Entrevista: Remodelando o panorama financeiro da África Austral (IESEG)

20 de dez. de 2023

20 de dez. de 2023

20 de dez. de 2023

Foto da equipe
Foto da equipe

- Versão longa de uma entrevista feita em 20/12/2023, para acessá-la clique aqui-

No cenário financeiro da África Austral, uma nova iniciativa, "CYTO", que se destaca por sua proposta digital, está pronta para surgir. A mente por trás desse empreendimento disruptivo é Joachim VALOT, um recém-formado no programa de Mestrado em Finanças Corporativas na IÉSEG. Seu compromisso com a inovação financeira e impacto social, juntamente com as habilidades adquiridas na IÉSEG, deram forma ao "CYTO", que está pronto para redefinir a gestão financeira em Angola e no continente.

CYTO… o que está por trás desse nome?

CYTO é, antes de tudo, uma equipe: Tamara Lerner, Thiébault Husson e eu. Temos trabalhado juntos nesse projeto por quase um ano. Com a visão de "Capacitar o Futuro Financeiro da África", nosso objetivo é construir uma ponte que ligue os continentes africano e europeu, facilitando o acesso aos serviços financeiros para seus habitantes e a diáspora. Essa ideia é uma resposta aos problemas que encontrei durante meus anos de estudo.

Para dar um pouco de contexto, sou Angolano e Francês. Angola é um país de língua portuguesa no sul da África. Cresci em Angola e vim para a França para estudar. Durante meus estudos na IESEG, foquei minha carreira no setor bancário, com uma primeira experiência em um banco no Togo, uma segunda em private banking no Luxemburgo e uma última em um fundo de investimento nos Emirados Árabes Unidos. Foi a segunda experiência que teve o efeito de um gatilho para mim. Primeiramente, destruiu meu síndrome do impostor que me permitiu questionar o meu papel na sociedade. A ideia de fazer carreira em uma instituição baseada na Europa ou na África parecia confortável, mas não muito satisfatória. Devo admitir a contribuição do meu ego nesta realização, haha.

Esse processo pessoal é o primeiro passo. O segundo é identificar um problema. É aí que minha dupla nacionalidade entra em jogo. O fato de ter um pé em cada continente me dá uma lupa de todas as disparidades que persistem. Naturalmente, estou focado no que conheço, os serviços financeiros. Até algo tão simples como uma transferência de dinheiro se torna uma dor de cabeça quando um país africano entra na equação.

Após os problemas, vem o porquê. Há uma infinidade de razões por trás dessas disparidades. Minha curta experiência nesse campo me permitiu entender que o sistema financeiro é construído de tal forma a excluir a África. No entanto, o progresso tecnológico e o surgimento de atores inovadores como Lydia ou Revolut na Europa, Venmo ou PayPal na América do Norte, Mercado Pago ou Uala na América Latina, Alipay ou WeChat na Ásia e até Flutterwave ou Jumia na África são provas concretas de que uma alternativa digital é possível. E mesmo que alguns dos nomes que mencionei sejam unicórnios hoje, muitos deles têm falhas. Aceitamos que estes são inspirações para CYTO, mas nossa ambição é fazer melhor.

Como pretendemos fazer melhor? Claro, nossa visão geral é revolucionar os serviços financeiros no continente africano. Estamos adotando uma abordagem passo a passo ao enfrentar primeiro o problema das transferências de dinheiro. Nosso objetivo é lançar uma plataforma web e mobile para transferências internacionais entre a Europa e a África, começando pelos meus dois países, França e Angola. O grande desafio aqui é tornar esta plataforma fácil de usar, com um rigoroso quadro regulamentar e uma rede bancária que se estende pelos dois continentes, tudo para um serviço eficiente a um preço imbatível.

Então você decidiu usar suas redes francesa e angolana para oferecer uma solução para esse problema...

Com certeza. Nesse ponto, gostaria de dizer que nosso entusiasmo não nos impede de sermos pragmáticos. Em nosso estágio, é importante enfatizar, até martelar, todos os nossos pontos fortes. Os antecedentes e a experiência dentro de nossa equipe nos permitem navegar e fazer com que sejamos ouvidos nos círculos financeiros da África e da Europa, o que é crucial em um setor complexo como o nosso. Assim como nossa experiência em finanças de mercado nos permite identificar e mitigar os riscos inerentes à transferência de fundos. Nosso amplo conhecimento das organizações financeiras garante que nossas operações estejam em conformidade com as normas internacionais para combater a lavagem de dinheiro e o financiamento de atividades ilícitas. Há tantos aspectos da CYTO que são importantes de destacar porque são provas que é o projeto certo, realizado pela equipe certa, no momento certo.

Você mencionou atores africanos. Alguns países africanos são melhor atendidos do que outros?

Alguns países africanos já têm start-ups que oferecem tais serviços, especialmente Egito, Nigéria e Senegal. Essas empresas encontraram seu mercado e algumas se tornaram gigantes. No entanto, até o momento, nenhum player se destacou dessa forma no sul da África e mais particularmente na África lusófona. Essa diferença se deve a quantidade de fatores, incluindo dinamismo e crescimento dos mercados. Sou aficionado de história, então me interesso pelos aspectos políticos e culturais das coisas.

Egito e Nigéria são ex-colônias britânicas, e as diferentes concepções de risco, mercado e inovação detidas pelos anglo-saxões estão bem estabelecidas. Essa diferença é sentida em todos os continentes incluindo Europa, e não há motivo para que a África seja uma exceção. Isso não explica tudo, mas estou convencido de que teve um impacto a longo prazo. As partes de língua francesa e portuguesa do continente sofreram há muito tempo com a falta de investimento e de tomadas de iniciativas individuais.

Angola é um pais pivot no sul da África, esta região por enquanto negligenciada tem um mercado de 250 milhões de habitantes e uma população jovem com necessidades reais em termos de educação, emprego e inclusão financeira e económica. As projeções feitas por instituições internacionais para essa parte do mundo são alarmantes. Os desafios são colossais, e qualquer tentativa de responder está indo contra a maré. Mas é isso que torna o projeto CYTO tão empolgante. Somos um projeto criado por jovens, para jovens. Estamos convencidos de que nossa abordagem centrada no cliente tem o potencial de se tornar um ator importante na educação e inclusão financeira no continente.

Inclusão, educação, então além do lucro, você também procura ter um impacto real na sociedade angolana...

Somos pragmáticos. Obviamente, nesse tipo de atividade nesta parte do mundo, os riscos são altos, mas o retorno potencial também é alto. Nunca deixamos de mencionar isso frente aos nossos investidores.

Mas a missão que nos propusemos vai além de uma simples solução prática e rentável. É uma mudança cultural que queremos impulsonar. É, antes de tudo, uma mensagem de inclusão internacional. Hoje, temos a sensação de que o mundo que está se fragmentando. Ao contrário, minha experiência me prova todos os dias que o mundo tem mais interesses em comum do que nunca. Nossa intenção não é de nos tornar os Benettons das finanças internacionais, mas consideramos que a mensagem, "Você pode ser angolano e estudar em Bruxelas, ou pode ser francês e se expatriar em Luanda sem ter problemas para abrir uma conta, transferir dinheiro ou pagar", é uma reivindicação poderosa por si. Depois, há a mensagem de controle sobre o seu próprio destino. Mais uma vez, estamos lançando nosso serviço em uma área assolada por desafios colossais. Queremos que o sucesso da CYTO inspire milhões de jovens africanos a assumir o controle de suas vidas. Nossa ambição é nos tornarmos um emulador de boa vontade, fornecendo todas as ferramentas, sejam tecnológicas, educacionais ou financeiras para contribuir a capacitação dessas boas vontades.

Pessoalmente, faz muito mais sentido para mim, dada minha formação e network em, tornar-me um prestador de serviços para os sistemas financeiros angolano e europeu. A demanda está lá e os lucros imediatos são maiores. Mas mais uma vez, esse papel não me satisfez. Acredito que todos os seres humanos nascem com habilidades únicas ou as desenvolvem, e é nosso papel, quando temos a sorte de conhecê-las, usar essas habilidades para fazer o que consideramos ser bom. Depois, há minha situação. Considero ter muita sorte, de ter tido uma boa educação, de ter uma formação reconhecida e, acima de tudo, de ter boa saúde. Por muito tempo, me perguntei qual significado poderia dar a todos esses privilégios que desfrutava sem ter realizado nada. Saí com um certo senso de responsabilidade, tingido de noções cristãs de teste e sacrifícios. Posso fazê-lo, então tenho que fazê-lo; fazer o contrário, na minha opinião, teria sido um desperdício. Eu sei que parece que substituí o síndrome do impostor pelo síndrome do salvador. Mas acho que o empreendedor perfeito está em algum lugar entre os dois.

Quais você considera serem as qualidades mais importantes de um empreendedor?

Não afirmo ter uma experiência universal de empreendedorismo, mas ao refletir sobre essa questão, percebi que o empreendedorismo é uma aventura pessoal que revela e amplifica as próprias deficiências.

No meu caso, sei que antes de começar, eu estava seriamente carente de gratidão. A gratidão se tornou central para mim, primeiro em relação aos outros. Empreendedorismo significa começar sozinho, e com o tempo, as pessoas se juntam a você e contribuem de alguma forma para tornar o projeto uma realidade. Não estou falando apenas dos meus colegas, embora não possa agradecer o suficiente a Tamara e Thiébault por abraçarem o projeto e trabalharem nele todos os dias. Também estou falando de clientes, parceiros externos e até de você, Alice, por me convidar para esta entrevista. O sucesso de um projeto depende da boa vontade de um grande número de pessoas, e às vezes uma pessoa pode mudar radicalmente o curso de um projeto. Não podemos nos dar ao luxo de ser ingratos.

Em segundo lugar, acho que a gratidão para si mesmo é importante. O empreendedorismo é um desafio de Sísifo, um problema resolvido revela outros dois e existem mais falhas do que vitórias. Portanto, é importante celebrar cada marco, cada objetivo alcançado que nos aproxima do sucesso, caso contrário, desistimos. Esse último aspecto está ligado a uma qualidade-chave do empreendedor: resiliência. Mais uma vez, o empreendedorismo é, acima de tudo, uma montanha de problemas acompanhada de obstáculos intransponíveis. É essencial ter a determinação e adaptabilidade para superar ou contornar essas barreiras.

Meu segredo para perseverar é me dizer que quando tenho uma ideia, 95% das pessoas que têm a mesma ideia não podem implementá-la por qualquer motivo. Dos 5% que podem, 95% tentam, mas desistem em algum momento, e dos 5% restantes, 95% o fazem, mas mal. A matemática rápida é infalível e nos motiva a fazer o nosso melhor.

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